“O Sonho NÃO acabou”, um papo com Leandro Luigi Del Manto – Parte 2

Nota: Essa é uma republicação dessa matéria original publicada no Dínamo Studios em 2014.

Para essa segunda parte do bate-papo, Leandro Luigi Del Manto já nos contou como começou a trabalhar para o mercado brasileiro de quadrinhos e agora compartilhará uma opinião singular sobre a publicação de quadrinhos adultos no Brasil.

Talvez nem tão singular assim, mas pelo menos a verdade de quem conhece o mercado!

Ah, e eu não me esqueci de outra promessa feita no post passado. Dessa vez ele vai revelar sobre como foi a mais estranha ligação que atendeu!

Você perdeu o post da semana passada? Eu te disse que daria em pesadelo, não?

Por isso, se redima com o Mestre Morpheus ecomece a ler agora mesmo

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Parte 2 – O Sandman da Globo, Mercado Brasileiro e chamadas diretas intergalácticas!

Vagner Abreu: Como foi a tomada de decisão de publicar “Sandman” entre os títulos da Globo? Como era o mercado de quadrinhos no Brasil naquela época? As vendas americanas fizeram parte da decisão de publicação? Ou o sucesso de crítica da revista foi mais levado em conta?

Del Manto: Então, eu queria ter publicado na Abril, mas não deu certo. Daí, a Globo comprou um pacote de títulos da DC, negociados aqui através da Sra. Helen Glazer (uma das pessoas mais legais e divertidas que já conheci!), da empresa de licenciamento Character. Esse primeiro pacote de séries trazia Sandman, Orquídea Negra e V de Vingança.

Naquela época, o conceito de quadrinho adulto era algo novo por aqui. Na verdade, ele se mesclava com a ideia do quadrinho de luxo.

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Quadrinho adulto, HQ de luxo, novelas gráficas e… gibis!

Del Manto: A primeira série a emplacar nestas bandas foi a série Batman: O Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller, mas como se tratava de um material com super-heróis, muita gente achava que qualquer coisa de super-herói lançado com um papel melhor e no formato americano iria vender tão bem.

Na verdade, acho que nem os leitores sabiam muito bem o que era o tal “quadrinho adulto”.Esse conceito foi sendo lapidado aos poucos com cada lançamento que chegava às bancas. Foi praticamente um BUUUM de HQs nas bancas no final dos anos 1980.

Muita coisa boa chegou aqui, mas também surgiram umas coisas bem estranhas… A única certeza que os editores tinham na época era que o Batman do Miller vendeu absurdamente bem.

Então, esta obra meio que serviu de referencial para tudo naqueles dias. Ninguém tinha muito acesso aos números de vendas das séries americanas, e, quando descobria-se algo, já havia se passado bastante tempo desde o seu lançamento.

No caso de Sandman, as vendas nunca foram espetaculares, sabe? (Vagnerd: NÃO???) Como as histórias demoravam mais tempo para serem concluídas, alguns leitores reclamavam por causa de pequeno número de páginas, pois queriam mais!

Mesmo para quem trabalhava na área, qualquer tipo de informação sobre o sucesso ou não de uma série era bem difícil de se achar. Eu acompanhava com bastante frequência a saudosa revista Amazing Heroes, uma publicação excelente cheia de matérias especiais, entrevistas,checklists de lançamentos etc.

HQ de Menininha? … NÃO. Uma série de referências universais!

Vagnerd: No primeiro número de “Sandman” da Globo há um breve texto sobre esse personagem também criado pelo fabulista Hans Christian Andersen. Como é o trabalho de editar uma obra tão cheia de referências a cultura pop, religião, literatura, mitologia e lendas?

 Del Manto: Hoje é tudo muito fácil, mas naquela época, tínhamos de apelar para as pesquisas próprias ou buscar ajuda nos acervos da biblioteca das próprias editoras. Por causa doSandman, comecei a comprar todo e qualquer livro que fosse relacionado ao seu universo ficcional, sem falar nos filmes e nas músicas. E essas pesquisas eram muito enriquecedoras.

Por causa disso, eu me sentia na obrigação de dividir isso com os leitores… E quando digo“leitores” estou me referindo ao “público leitor”, que tinha um número enorme de LEITORAS. No Brasil, os quadrinhos sempre foram considerados“coisa de meninos”, mas Sandman conquistou um público feminino inédito até então. Recebíamos muitas cartas de leitoras de todas as idades e lugares do país.

Particularmente, devo dizer que sou muito grato à revista, pois fui forçado a conhecer coisas que eu desconhecia. Foi um enriquecimento profissional e pessoal muito grande. E todas aquelas pesquisas abriram as portas para assuntos completamente novos e fantásticos.

Esse trabalho de pesquisa foi tão prazeroso para mim, que achei que o público deveria ter uma amostra daquilo tudo. Por isso, sempre que possível, eu pautava matérias complementares que tivessem algo a ver com a história. Foi uma maneira de oferecer algo diferente para o público e compensar o preço de capa. Assim, cada centavo valeria a pena! E isso foi extremamente recompensador para mim. Claro que houve alguns incidentes beeem estranhos…

Mistério do Telefone Revelado: uma HQ pra TODOS os públicos mesmo!

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Del Manto: Certa vez, recebi o telefonema de um sujeito que se apresentou como “leitor de Sandman”. Ele realmente acompanhava a série e fez vários comentários bastante pertinentes, mas evitava dizer seu nome. Num dado momento, ele quis muito saber se eu fazia parte de alguma sociedade ligada ao ocultismo! Eu disse que não, que apenas me interessava pelo assunto, mas era só curiosidade mesmo.

Por fim, ele perguntou se eu era Rosacruz… Uma vez mais, eu disse que não e ele encerrou a conversa dizendo: “Hummm… Entendi. Bom, muito grato pela atenção. Você deverá receber um outro telefonema em breve, ok? Até mais.” E desligou.

Fiquei ali, segurando o telefone na mão e olhando pro vazio por alguns segundos. Foi a ligação mais estranha que recebi na vida!

(Vagnerd: Leando Luigi Del Manto tenho uma confissão para te fazer: EU era essa pessoa que ligou para você!!!  TCHAM TCHAM TCHAM!!!)

Drawing a line … Alan Moore, the creator of Watchmen.

Vagnerd: Não… Mentira. Estou só de zoeira mesmo. Provavelmente não teria idade para pertencer a uma sociedade mística… Naquela época. ;)

“O Trabalho que me Torna Vivo.”

Vagnerd: Quais foram as maiores dificuldades ao se editar “Sandman”? Pode-se dizer que foi o trabalho mais desafiador a você como editor de publicações?

Del Manto: Não acho que foi o mais desafiador, não. Eu tinha muita sintonia com a série, pois era leitor também. Então, tudo era feito com amor. Mas, certamente, é o trabalho em que mais me empenhei para fazer e do qual mais me orgulho na minha carreira!

“ O desafiador em editar Sandman foi brigar (às vezes, quase que literalmente!) para que a série continuasse viva e fosse publicada até o final. Não foi fácil, não.”

Mas a produção da revista, mesmo sendo trabalhosa, era um prazer imenso, sabe?

Quando você faz um mesmo trabalho sempre e que não te traz nada de novo, não te força a aprender algo de novo… Putz! Isso é um saco, não?

Mas produzir cada edição deSandman me fazia pesquisar e descobrir coisas novas. Era muito bom. E foi graças a esse tipo de sensação que procurei “moldar” todos os meus trabalhos posteriores (claro, na medida do possível). Mais do que amar, o que torna um ser humano vivo é a vontade de aprender algo novo, de buscar conhecimento. Quando isso acaba… arrivederci!

Cartas na Areia: Saudades do Tempo que Falavamos com os Editores.

Vagnerd: A edição de “Sandman” da Globo é reconhecida por sua seção de cartas chamada “Cartas na Areia”. Por que você considera importante que os periódicos tenham um espaço de comunicação com o leitor?

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Del Manto: Pois é… O que mais sinto falta hoje nas revistas em quadrinhos é da seção de cartas. Sempre foi a primeira coisa que lia ao abrir qualquer revista que fosse.

Acho que já no primeiro número da série pedia que os leitores escrevessem para a revista. Eu, como leitor, sempre escrevi para as seções de cartas. E torcia para que publicassem uma carta minha. Acho que era o sonho de qualquer leitor ter seu nome“imortalizado” nas páginas da revista que mais curtia.

Del Manto: Bom… Eu sabia que era o MEU sonho! Então, achei que os fãs de Sandmangostariam disso também. Começamos a receber cartas logo depois do lançamento, mas eram mais cartas de congratulações…

O “problema” era que nós trabalhávamos com muita antecedência, sabe? Quando o # 1 chegou às bancas, estávamos já trabalhando no # 6! Daí, com a segunda revista em bancas, começamos a receber mais cartas fazendo perguntas etc…

Algumas cartas chegaram a ser respondidas por mim mesmo, mas foi somente com Sandman # 10 que estreou a seção “Cartas na Areia”. A partir daí, passamos a receber muitas cartas e já não trabalhávamos mais com tanta antecedência como no começo da revista. Aos poucos, as cartas foram ficando cada vez mais cheias de informação. E, ao responder as cartas, eu sempre tentava passar muita informação.

Hoje, por causa da internet, as publicações estão ficando muito impessoais e frias. A seção de cartas reflete o perfil do leitor daquela revista e cria muita empatia com os demais leitores. Acho isso muito importante.

As Graphic Novels invadem as bancas… e assustam os jornaleiros!

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Vagnerd: Quando Sandman começou a aparecer no Brasil, as graphic novels estavam em alta. Era a época de “Ronin”, “Elektra Assassina”, “Piada Mortal”… Conte-nos como era o mercado brasileiro de quadrinhos nessa época?

Del Manto: Ah, certamente foi a época em que os leitores mais se sentiram pobres… Sério! Quase todo dia tinha um lançamento nas bancas. Era tanta coisa, que, às vezes, tínhamos de escolher o que comprar e rezar para achar o que perdíamos num sebo depois… O dinheiro nunca dava!

Mas uma coisa curiosa também ocorria… Era difícil achar as revistas nas bancas! Os jornaleiros não sabiam onde colocar as revistas. Todos estavam acostumados com o formatinho e, de repente, surgiram novos formatos: eram revistas menores que as revistas adultas e um pouco maiores que o formatinho, mas tinham menos páginas e custavam mais caro.

Onde exibi-las? Como exibi-las? Foi um caos nas bancas!

Quando trabalhei na Abril, cheguei a participar de um encontro de distribuidores para explicar do que se tratavam essas publicações novas e para que público eram dirigidas. O pessoal não tinha a menor noção do que eram aqueles quadrinhos tão diferentes. Aos poucos, todo mundo foi se acostumando, mas não foi fácil!

Ao mesmo tempo, as editoras começaram a diminuir o número de lançamentos e a ser mais criteriosas. Uma coisa boa é que muita gente que havia desistido de ler quadrinhos por puro preconceito, voltou a comprar e colecionar. Afinal de contas, quadrinhos não era mais “coisa de criança”, certo?

E até os títulos em formatinho de super-heróis foram redescobertos naqueles dias. Afinal, a temática adulta sempre estivera presente nos quadrinhos americanos. Ela só não era divulgada como diferencial de mercado até então.

Daí, começaram a lançar várias obras com super-heróis que não eram necessariamente “adultas” no formato americano. Foi um período de muitas experiências e descobertas. Uma época sem igual!

Como manter um Sonho por várias noites? 1ºs Desafios da revista no Brasil.

Vagnerd: Em Sandman # 08 foi publicado um comunicado sobre a redução dos custos da revista para que a publicação se torne mais barata, evitando o cancelamento. Conte-nos sobre a dificuldade de se publicar o título no Brasil.

O primeiro arco de histórias, com arte de Sam Kieth e Mike Dringenberg não caiu muito no gosto dos leitores, e isso foi um problema. Aliás, um GRANDE problema.

Quando um leitor procurava um “quadrinho adulto” nas bancas, ele queria algo com uma arte espetacular e uma boa história. O apelo sempre foi mais na parte visual do que no texto em si.Frank Miller, Bill Sienkiewicz, John Bolton, Dave McKean, Jon J. Muth, Kent Williams,George Pratt eram os grandes nomes do momento, pois tinham a vantagem de possuírem uma arte fora de série – que é o que todo mundo queria ver.

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Sandman seguiu pela contramão: o forte era a história, não a arte. E, afinal de contas, quem eraNeil Gaiman“Ah! Era o cara que escreveu aquela minissérie do Dave McKean, Orquídea Negra!”Entende o que digo?

Ninguém estava prestando muita atenção ao texto, mas sim na arte. Então, logo de cara, a revista não fisgou aquele leitor que dá só uma folheada pra ver se os desenhos são legais. Ela custou a formar um público fiel.

As Expectativas do Departamento Comercial

Del Manto: Nessa primeira fase da revista, todo o departamento comercial da Globo esperava um desempenho melhor, mas, ainda assim, o título não dava prejuízo. Daí, decidiram que a série iria continuar, mas teríamos que utilizar um papel mais barato.

Ok! E assim foi. A edição # 8 começava com uma espécie de “resumão” da história até aquele momento e apresentava a irmã de Morpheus: Morte. Era a deixa para meio que recomeçar a série. Nova fase. Novo papel.

Claro que muita gente reclamou, mas era aquilo ou nada! E a revista continuou bem. Não um sucesso de vendas, mas um título saudável. Vale lembrar que, na Globo, uma revista formatinho do Fantasma com suas 64 páginas coloridas vendia em torno de 60 mil exemplares, enquanto Sandmanchegava em torno de 10 mil exemplares vendidos.

Posso ter me enganado com os números um pouco, pois faz bastante tempo e nunca fui muito bom em guardar números de tiragens e vendas…

Nota do Vagnerd: Qual revista vende 60 ou 10 mil números hoje em dia? O.o

O Primeiro Encadernado de Sandman no Brasil também é da Globo!

Del Manto: Uma outra coisa que funcionou com Sandman e outras séries adultas da Globo foi o recurso das edições encadernadas. A princípio, só as minisséries seriam encadernadas usando o encalhe das vendas.

Isso geralmente era feito em torno de seis meses após a venda do último número das séries. Arrancavam as capas, juntavam tudo com uma nova capa e se conseguia vender um encadernado a um preço super em conta nas bancas. Essas edições vendiam muito, cobriam quaisquer prejuízos que a série pudesse ter tido na sua venda avulsa e ainda davam lucro.

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“Um negócio da China!”, como se dizia antigamente… Daí, sugeri que fizessem o mesmo com Sandman, apesar da série nunca ter sido concebida com esse propósito. O pessoal aprovou a ideia e lançamos o primeiro encadernado de Sandman antes mesmo de terem publicado umpaperback com o mesmo arco nos EUA. A edição esgotou, claro!

Foi um grande sucesso!

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Sim, Sandman é um grande sucesso mesmo! Mas é claro que a venda de encadernados das edições encalhadas e a redução do papel não foram as únicas estratégias adotadas pelo nosso entrevistado para fazer o título ser publicado até o fim. Na terceira parte de bate-papo você saberá que uma crise econômica muito forte, como a que afetou o Brasil no início dos anos 1990, pode ser muito mais fatal para o Rei dos Sonhos do que as Três Fúrias!

Então, o que o nosso amigo Del Manto fez para impedir que “O Sonho não acabasse”? Como uma editora de RPG foi importante para o título? E porque as revistas de FORMATINHO são tão importantes para o mercado de quadrinhos?

A respostas para esses questionamentos, é claro, na próxima semana!

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