Beladona entrevista: a roteirista Ana Recalde

foto_ana-300x300Se existe algo que se pode dizer de Ana Recalde é que ela é uma viajante. Tanto em seu interesse por diferentes tipos de obras na literatura, HQs, séries e filmes, quanto na história de suas moradas em torno do Brasil (Mato Grosso do Sul, São Paulo, Brasília e agora Rio de Janeiro).

Talvez ela tenha uma Tardis, ou outra máquina de viagem pelo tempo-espaço que o valha.

Ou talvez a habilidade mais notável dessa campo-grandense seja a de trabalhar com as referências de universos distintos. E uni-las em uma realidade completamente nova. Realidade essa que fará o leitor não só passar o tempo de uma leitura. Mas viver e revisitar a toda vez que colocar a cabeça sobre o travesseiro.

Adentrar o reino simbólico da realidade pode ser perigoso se você não tiver o conhecimento certo. Por isso, aproveite as lições ensinadas pela autora na entrevista a seguir.

“Agora me deito para dormir. Rezo ao Senhor a minha alma guardar…”

 

Vagner Abreu: Ana. Por que quando lemos Beladona, sentimos uma sensação como se a HQ fosse um bom livro de fantasia apimentada com terror? Sabe? Como Alice no País das Maravilhas.

Ana Recalde: Eu sou fascinada por fantasia, acho que essa é uma das razões. Outra razão é que eu quis fazer a história de uma menina e sua maturidade, por um acaso essa história envolve muito terror, claro! Então se seguir no fundo da história, podemos ver a jornada pessoal da Samantha, talvez por isso a sensação.

(Notas: *Antônio é o namorado de Ana Recalde.)

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Vagner: Como surgiu a ideia de escrever uma HQ ambientada no mundo dos sonhos? Você gosta desse tipo de ambientação onírica ou o motivo é mais pessoal?

Ana: Eu sou extremamente apaixonada por Sandman*. Foi com Prelúdios e Noturnos que eu descobri que queria ser escritora e fazer quadrinhos (risos). Acho que isso explica muita coisa.

(Notas: Sandman é uma história em quadrinhos de Neil Gaiman sobre uma divindade que coordena o mundo dos sonhos. Prelúdios e Noturnos é o primeiro arco de histórias dessa HQ)

 

Vagner: Quais filmes, livros ou gibis que mais influenciaram a concepção de Beladona e onde cada obra influenciou?

1318883723_coraline_ost_2009Ana: Nossa, várias coisas me influenciaram. Eu não queria fazer um único tipo de terror, mesmo porque, a história era longa. A parte de diálogos com a Vânia, psicóloga, eu busquei influência em certos livros do Lovecraft. Sabe quando ele faz um diálogo completamente corriqueiro parecer uma coisa de outro mundo e prenúncio do fim do mundo? Então, queria algo assim.

Na narrativa meio cortada dos pesadelos, eu fui até o oriente. Amo mangás e filmes de terror japoneses, como Uzumaki, Ringu, O jogo dos espíritos… então parte da narrativa eu tirei dali.

Se formos analisar Coraline, do Neil Gaiman, e ter os pais bizarros em outra dimensão, também teve um toque ali. Além da Samantha ser uma personagem meu de Mago: A Ascensão*. De muito antigamente.

Falta falar de coisas, mas dá pra analisar de várias formas. Tudo isso que eu já consumi faz parte da escritora que eu sou.

(Nota: Mago é um RPG sobre místicos. Ele foi criado pela White-Wolf, mesma empresa do popular Vampiro: A Máscara).

 

Vagner: O nerd aficionado por procurar easter eggs poderá encontrar surpresas em Beladonas? Quais você poderia nos contar para aguçar a curiosidade dos leitores?

Ana: Com certeza! Tem um símbolo que aparece desde o primeiro capítulo, procurem!! Ganha um prêmio quem achar os personagens do Toy Story também…

 

Vagner: Quais livros/quadrinhos que estiveram na cabeceira da sua cama durante as diferentes fases de Beladona? O que você lia quando planejava-a? E quando começou a publicar online? E quando esperava ansiosa pela aprovação do Catarse?

Ana: O financiamento coletivo é uma experiência única! A ansiedade é diária e o trabalho também!

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Nossa, calma calma. Em 3 anos eu li muuuuuuita coisa de quadrinhos. Nem dá pra imaginar. Eu li, de livros, dois do Leonel Caldela*, li quase tudo de quadrinho nacional de caiu na minha mão, muito Batman do Snyder, Maus (sim, li só nesses anos agora, que vergonha), “O Livro do Cemitério” do Neil Gaiman, “Shada” do Douglas Adams, “Saco de Ossos” do Stephen King, “O Rei de Amarelo”, livros de RPG como Este Corpo Mortal, Savage Worlds e um RPG especial de 50 anos de Doctor Who. Bom, isso que eu me lembro.

(Nota: * Leonel Caldela é autor gaúcho de literatura fantástico. Conhecido pela “Trilogia da Tormenta”, “O Caçador de Apóstolos” e “O Código Élfico”)

Por falar em RPG. E autores de jogos, vamos aos próximo assunto discutido nessa conversa.

Brincadeiras no “Teatro dos Sonhos”

 

Vagner: O que você pode adiantar sobre o RPG de Beladona?  O que os jogadores irão encontrar é um universo expandido no jogo ou mais como uma caixinha de areia para quem deseja brincar no mundo de Samantha?

Ana: Olha, as duas coisas na verdade. Uma das maiores vontades era transformar o RPG em não apenas uma extensão para quem leu a HQ, mas um RPG de terror que funcionasse sozinho. Teremos grandes passagens do livro sobre como funciona o mundo dos pesadelos que a Sam visita, mas a ideia é que os jogadores nem a encontrem. Os mestres poderão criar aventuras bem longe dos lugares e pesadelos que a Sam enfrentou, ou usar o que vimos na HQ. O RPG vai surpreender, acredito.

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Vagner: O livro de RPG será planejado com um sistema de jogo próprio ou será mais como um cenário de jogo para ser adaptado facilmente as regras de Gurps, 3D&T, Mage: The Ascession, Daemon, etc?

Ana: Vai ter um sistema próprio. Estamos escrevendo o RPG em 4 mãos, eu e o Antônio Henning*. A nossa ideia é fazer esse sistema próprio e depois escrever vários cenários para ele, não exatamente no mesmo tema. Temos o cenário de terror, que é a Beladona e teremos ainda esse ano o cenário de Sci-fi, mas primeiro o primeiro (risos).

Estamos desenvolvendo o sistema para ser flexível e fácil de adaptar para cenários diversos, simples e limpo. Veja que não queremos fazer mais um sistema genérico, pois temos vários e super competentes, mas decidimos isso por nunca encontrar um meio termo no tipo de jogo que gostamos. Eu que sou mais chegada no estilo narrativo e o Antônio que gosta muito da parte mais matemática da coisa. Enfim, queremos chegar nesse meio termo, se tudo der certo.

 

Vagner: Como foi o processo de seleção dos prêmios extras para a HQ? O que você tinha em mente quando optou por colocar RPG, cards e uma Apanhador de Sonhos entre os prêmios adicionais?

Ana: O RPG veio da ideia que queríamos expandir o cenário para que as pessoas entendessem melhor como funciona o mundo dos pesadelos. Isso evoluiu pro RPG, já que eu sou RPGista e escritora. Os cards colecionáveis são uma coisa da nossa infância e achei muito legal reviver essas coisas. E o apanhador… bom, acho que é auto-explicativo (risos).

Sério, um dia o Denis estava passando na rua e viu o apanhador, trouxe a ideia e eu amei.

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Vagner: Ao ter atingido mais de R$ 38 mil, isso significa que teremos um vídeo-game de Beladona? Como será esse jogo? O que você pode nos adiantar dele?

Ana: SIM! Teremos jogo sim. O jogo vai seguir a história do Eduardo antes de conhecer a Samantha. Ele vai ser plataforma, ele bem herói mesmo, até conhecer nossa protagonista. Vai ser lindo.

 

Vagner: Eu sinto que Beladona tem um feeling de literatura bem ao estilo “Alice encontra Fank Krakfa e flerta com Stephen King”. Podemos ver algum dia um romance de Beladona? (Se não for acontecer pelo menos fica ai como um pedido de um fã :D)

Ana: Não tinha pensado nisso, sinceramente. Mas não está descartado de forma nenhuma… quem sabe?

 

“Dream a Little Dream of Me…”

Vagner: Qual a importância de ter sido indicada duas vezes ao troféu HQ MIX como melhor quadrinho online? Foi notado um crescente número de leitores.

Ana: Ah, foi fantástico. Dá uma certa segurança pra continuar produzindo. Principalmente sabendo que tem tanta coisa boa online sendo produzida. Nos dá uma grande sensação de reconhecimento dos colegas. Eu fiquei muito feliz nas duas vezes.

 

Beladona-1Vagner: Fazendo um rápido retrospecto desde o dia em que você, Ana Recalde, viu a publicação da primeira página de Beladona no Pestico.org até os dias de hoje – com o objetivo conquistado no Catarse – como você mudou nesses dois anos de revista?

Ana: Eu mudei muito. Sabe, tem uma coisa que eu nunca conto, mas naquela Rio Comicon eu pensei muito em parar de escrever. Aqueles anos estavam difíceis, mas um amigo me disse que era bobagem. E era. Eu amo fazer quadrinhos.

Agora eu tenho uma história grande e completa finalizada, um álbum que me dá muito orgulho! E se antes eu era apenas uma aspirante, agora eu posso mostrar meu trabalho como roteirista de outra forma.

Vagner: De algum modo é possível traçar um paralelo entre Samantha e Amanda – a personagem de Patre Primordium*? Se sim, qual a relação que elas podem ter em comum – além de terem sido criadas pela mesma mente insana.

Ana: As duas se tornam personagens femininas fortes e independentes, ambas com um início um pouco trágico. De formas bem diferentes, mas não deixa de ser trágico. Esse é o principal paralelo que eu vejo entre elas. Capazes de mudar o mundo se elas quisessem.

(Nota:* Patre Primordium foi um mangá brasileiro escrito por Ana. Foi seu primeiro sucesso no mundo das HQs)

 

Vagner: Você já trabalhou com diversos outros desenhistas. Mas ver a arte do Denis Melo, percebo que sua narrativa e a arte dele estão em melhores sintonias do que em trabalhos passados. Será uma impressão minha ou o universo de Samantha foi feito para ser desenhado pelo Denis? O que você acha?

Ana: Eu pensei a Beladona em cima do traço do Denis desde o começo. Isso influencia como eu escrevo. Outra coisa é que eu estou mais experiente, isso também ajuda a deixar o trabalho mais fluido.

Depois, e muito importante, ficamos três anos trabalhando juntos nessa história. Pegamos as questões um do outro. Isso foi muito importante para dar essa impressão.

 

Vagner: Como foi a sua relação com o Denis Mello durante a criação de Beladona?

Ana: A gente se encontrava no começo de cada capítulo pra eu dar a ideia geral do que ia rolar. Depois a gente se falava mais pela internet. Eu mandava o roteiro, ele raffeava, me mandava, eu aprovava, ele fazia a página e depois de letreirar ele me mandava de novo. Quando estava ok, mandávamos pro Cadu* e pronto!

(Nota: Cadu Simões é o editor do Petisco. Site em que Beladona foi publicada inicialmente até tornar-se encadernado).

 

Maioridade

Vagner: Existe uma Ana Recalde dentro da Samantha? Em quais momentos? (se a resposta for positiva, isso significa que a Ana já pensou várias vezes em tocar o terror nas colegas chatas do colégio?)

BELADONA4Ana: Eu queria tocar o terror nas colegas chatas com certeza! Mas, eu sempre fui muito pacífica.

Existe sim, acho que é complicado escrever uma coisa que não faz ou fez parte da nossa vida. Claro que não tudo, mas pelo menos parte da gente está lá. O trabalho tem muita pesquisa, mas também tem muito da nossa vivência.

Bom, crescer não é fácil, além de ser aterrorizante. Acho que isso eu me identifico plenamente com a Sam.

 

Vagner: E como Samantha mudou?

Ana: Samantha era apenas uma criança medrosa e amedrontadora, agora ela é uma mulher. É toda a mudança do mundo (risos).

 

Vagner: Qual a principal preocupação que você tem ao representar as mulheres nas suas HQs? E os homens, como você os retrata?

Ana: A minha preocupação é retratar pessoas. Com todas as idiossincrasias que são inerentes a todos nós. Não gosto de pensar que “todos os homens são iguais”, por exemplo. Nós somos pessoas por completo, cheias de sonhos, vontades e manias. Meu objetivo como escritora é conseguir retratar isso da melhor forma.

Eu uso protagonistas femininas por dois motivos, por ser mulher e por ver que tem poucas mulheres representadas sem um milhão de preconceitos por aí nos quadrinhos. Isso me dá ainda mais vontade de retratá-las de forma natural e complexa de cada ser humano.

Mas também já escrevi homens da mesma forma. Eu acredito que o ser humano é fantástico e fonte de infinitas histórias.

 

patreVagner: Cada vez mais percebo que você é uma autora de mão cheia e que está sempre inovando, Ana. Patre Primordium teve material exclusivo e digital (apesar da HQ impressa) ao passo que Beladona começou como HQ online e agora se tornará encadernado de papel. Comente sobre essas diversas formas de trabalho e o que aprendeu com cada uma delas.

Ana: Cada formato tem a sua narrativa, essa á principal coisa que eu aprendi fazendo as coisas dessa forma. Eu acredito que utilizar novas ferramentas pra levar o quadrinho é muito importante pra ele crescer como arte. Por isso, continuo testando (risos).

 

Vagner: Quais os personagens de Beladona que mais surpreenderam a autora Ana Recalde e por quê?

Ana: Acho que o Eduardo foi um dos que mais me surpreendeu, porque as pessoas gostaram mesmo dele (risos). Não que não era pra gostar dele, mas eu sabia o que ia acontecer e isso deixou muita gente triste.

__________________________

E agora você acorda…

 

Capa BeladonaSe você chegou até aqui, deve estar curioso para saber mais sobre essa HQ criada por uma autora que viaja do Sonhar de Sandman ao Mundo das Trevas de Mago, mandando cartões postais de dimensões que inspiraram as obras mais assustadoras de Leonel Caldela, Stephen King e H. P. Lovecraft, não é?

Agora você sabe o até onde uma escritora brasileira, fã de Metallica, leitora de mangá e aspirante a roteirista de terror coreano pode levar sua personagem. Uma menina. Samantha.

Mas o que você ainda não sabe sobre Beladona é que há muitos mistérios que somente a história irá te contar. Por isso, compre agora mesmo o seu exemplar na AvecStore. E se preferir leia os três primeiros capítulos de graça em Petisco.org.

 

Entrevista por Vagner Abreu.
Gestão de Conteúdo para Web/Assessoria Imprensa.

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2 comentários sobre “Beladona entrevista: a roteirista Ana Recalde

  1. Pingback: Beladona entrevista: o artista Denis Mello | O blog do Vagnerd

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