Conheça “de verdade” o pai adotivo de Zé Carioca

DSC063661Essa é uma republicação de uma matéria que escrevi para o Dinamo Studio no início de 2012. É importante destacar que nessa época não tinha a prática diária em escrita e por isso essa redação não deve ser avaliada junto com meu currículo de redator.

Quando a escrevi ainda não havia trabalhado como repórter. Esse artigo estava no case de matérias que apresentei no jornal Primeira Página, quando participei de uma entrevista de emprego. Republico aqui apenas para reapresentar esse material bacana sobre o Mestre.

AQUI está o link original dessa matéria.

Um ano depois, graças a essa redação, os amigos do Dinamo (Fabiano Silveira e Daniel HDR) me escalaram para entrevistar o Renato Canini durante a Multiverso Comic Con 2013. Um encontro emocionante para mim .A entrevista pode ser ouvida AQUI. Este é um dos poucos arquivos em áudio com participação do Canini na mídia nacional.

No mesmo ano, em novembro, soubemos do falecimento de Canini (ver AQUI). Mas esse mestre partiu bem, foi para o Céu onde nunca deixará de ser reconhecido como o Mestre Disney Brasileiro.

Sem mais delongas, fique com agora matéria…

***

Irei começar com um fato ocorrido nessa última sexta-feira, durante o meu horário de almoço. Eu estava lá no refeitório da empresa onde trabalho, comendo um bom churrasco gaúcho com arroz branco e maionese de mandioca com farinha de trigo quando, ao por os olhos na televisão, me surpreendi com a imagem de uma prateleira recheada por vários gibis do Zé Carioca.

Na mesma hora entrei no modo “Não me chame para nada eu quero ver somente o Zé Carioca”, me tornando assim, alheio a tudo e a todos ao meu redor. Só havia eu, o Zé, e os pedaços de costela que eu colocava automaticamente na minha boca, sem ao menos cortar em pedaços menores.

Havia muito barulho no local, provocado pelos meus colegas orangotangos (E olhe que eu não “trampo” num Zoológico) e infelizmente eu não pude ouvir do que se tratava a reportagem, mas eu vi que logo em seguida apareceu um vovozinho cabeça branca muito simpático e faceiro conversando com o repórter.

Logo, minha reação foi: “Caraca, esse é o desenhista do Zé Carioca!”

Bem, como alegria de brasileiro dura pouco, comigo não foi diferente e aconteceu que, no exato segundo entre o descer de meus olhos para o arroz com maionese de mandioca, e o segundo de olhar novamente para a televisão o vovô alegre e simpático havia desaparecido e uma reportagem whatever for my live estava passando.

“Como assim? Onde está o cabecinha branca alegre? Quem era aquele senhor? Do que se tratava a reportagem?”
Infelizmente, a matéria do telejornal local terminou assim, e meu dia seguiu de mal a pior. Somente chegando em casa  que eu pude  acessar o site da emissora para rever o tão alegre vovô na tela do meu notebook, no silêncio do meu quarto (sem símios barulhentos por perto, felizmente).

Bem, eu explico o motivo de minha fascinação pelo fato noticiado. Acontece que o primeiro gibi que eu li na vida era uma revista do Zé Carioca. E esse, de todos os personagens que se lê quando se tem 6 anos, era, de longe, o meu personagem preferido. Não porque era o meu primeiro (!?) e nem porque era brasileiro, mas sim porque ele era VERDE! (É a gente tem uns critérios de avaliação beem consistentes para se gostar de algo quando se tem essa idade).

Certo, mas agora, seguindo com o post. E que tal se eu mostrar a vocês quem era o vovozinho de cabeça branca que teve poucos minutos de participação na tele-reportagem?

 

Canini: Reformulando papagaios da Disney desde 1970

Rufem os tambores, as cortinas se abrem e o vovozinho simpático comentado acima é o senhor Renato Canini. Já na casa dos 70 anos, o artista é reconhecido pela própria Disney como “Maior Desenhista de Walt Disney no Brasil”. Nasceu em Paraí, Rio Grande do Sul, e aos dez anos de idade perdeu seu pai, quado morava com sua mão e seus muitos irmãos na cidade de Frederico Westphalen. Neste mesmo ano começaram as migrações de Canini entre casas de parentes, várias moradias e internatos em Gravataí e Passo Fundo

Em um desses internatos, Renato chamou a atenção de seus professores por sua grande habilidade com desenhos, conquistando assim, uma bolsa de estudo na Escola de Belas Artes. Seu período na escola foi bem curto. Após uma semana de estudo o artista abandonou o curso por não gostar de desenhar imitando imagens paradas; gostava de trabalhar criando e usando sua afiada imaginação. Talvez seja por esse motivo que o Zé Carioca de Canini tenha se consagrado acima dos demais.

Com 21 anos, Renato foi obrigado a arrumar um emprego. Resultado: Ele entrou num cursoboring de contabilidade e não se desenvolveu nessa ciência tão bem quanto com o lápis. Sua matemática era fraca, mas seus desenhos não deixavam de evoluir. Porque, como todo bom artista em busca de aprimoramento, não deixava de desenhar um dia sequer. (O que será que ele desenhava no caderno de aula, enquanto o professor falava sobre balancetes e livros diários!?).

Nessa época, o pai adotivo do Zé morava e estudava em Porto Alegre, e teve a brilhante ideia de levar seus desenhos (que ainda não eram sobre aves brasileiras antropomorfizadas) para a Secretaria de Educação e Cultura da cidade. Acabou ganhando um emprego no periódico que a mesma editava e assim começaram seus dias de trabalho para a revista “Cacique” (Uma outra época não é verdade? Quando você simplesmente chegava numa secretaria, mostrava o que você sabia fazer e ganhava um “trampo”).

Renato Canini agora era desenhista e trabalhava numa publicação que pertencia a Editora Globo e dividia espaço com nomes como Érico Verissímo e Mário Quintana. Ou seja, ele estava próximo de outros dois velhinhos simpáticos, sobretudo por esse último: Quem nunca tirou uma foto com o Mário na Feira do Livro de Porto Alegre? Então, foi nessa época que ele aprendeu com os melhores a desenvolver um super poder que o transformará em 2012 num vovozinho cheio de simpatia e alegria.

Mais a frente, o artista foi a São Paulo onde trabalhou na Recreio da Abril (não confundir com a atual revista de mesmo nome) e compartilhou o local de trabalho com muitos desenhistas das revistas da Disney, também publicadas pela Abril. E foi aqui que Canini pôde começar a trabalhar no nosso querido papagaio malandro.

Zé Carioca, antes de ser arrumado pelo Gaúcho

José Carioca foi criado pela Walt Disney na década de 40. Nessa época, os estúdios estavam em uma turnê pela América Latina promovendo a campanha “Good Neighboor Policy” (Política de Boa Vizinhança) dos Estados Unidos que consistia em reunir aliados para a Segunda Guerra. Porém, segundo reza a versão oficial da criação do personagem o Mr. Disney teria se apaixonado pelo Rio de Janeiro e seu povo, então quis deixar uma homenagem para eles (imaginem o tipo de Ser que iria nos representar se o criador dos estúdios tivesse conhecido o Rio nos dias atuais!). Zé Carioca também teria sido inspirado no sambista José do Patrocínio (e eu caso 10 no chão como você já deve ter visto esse nome em alguma placa de rua Brasil afora… mas não é de um sambista de que falam as placas).

A primeira aparição do nosso querido psitaciforme nascido no Rio de Janeiro foi na animação“Alô, amigos” (1942). Filme que apresentava ao mundo países latinos como o Brasil, o México e a Argentina. Na história, Pato Donald viaja para os lugares citados e se envolve com a cultura local. Desnecessário dizer que o Zé, como todo bom Carioca, apresentou ao Pato ianque a cachaça e o samba.

No Brasil, o louro teve estréia na publicação da década de 40 chamada O Globo Juvenil. Nessa fase o Zé ganhou mais personalidade: características como malandro, boa praça, caloteiro e inventivo como um bom brasileiro passaram a fazer parte do comportamento dele. A cachaça tornou-se menos importante para as histórias do papagaio e ícones como futebol, feijoada e jaca passaram a ser mais comuns.

Infelizmente havia falhas de roteiro nas histórias dessa época. Zé, ao invés de viver aventuras próprias, revivia histórias de outros personagens da Disney como o Mickey, o Donald e o Pateta. Ou seja, havia pouca coisa realmente criada para a cronologia do personagem, basicamente pegava-se uma história de um personagem e se substituía pelo louro. Isso fez surgir pérolas como Zé Carioca morar em Patópolis e ter sobrinhos (a versão de Huguinho, Zézinho e Luisinho).

E veio Canini…

Se Walt Diney é o pai falecido do Zéca, Canini é considerado seu pai adotivo. E para começar, o novo pai disse: “Vamos já tirar essa casaca, esse chapéu panamá ridículo e essa gravata borboleta. E já vestir uma camiseta sem estampa”.

Depois, Canini retirou a cachaça e o charuto do personagem e passou a dar ao mesmo hábitos mais brasileiros como jogar futebol e ser caloteiro. Sua nova casa era em um barraco na favela e não em Patopolis e seus amigos eram mulatos mais parecidos com típicos brasileiros. Outras inovações agregadas ao louro eram a habilidade de fugir de seus credores, acordar depois do meio-dia e ter repulsa ao trabalho. Ele também adquiriu a incrível capacidade de se dar bem sobre os outros, mas nada por maldade, apenas um jeitinho bem brasileiro de ser.

É por essas e por outras que o gaúcho ficou tanto tempo desenhando e escrevendo histórias para o juru carioca. Tanto que em 2005, o artista foi escolhido como “O Maior desenhista de Walt Disney no Brasil”. Suas histórias do Zé foram reunidas em um encadernado especial chamado “Mestres Disney”, que possui representantes de diversos países. Também foi reconhecido pelos estúdios como o desenhista que mais expandiu o universo do personagem.

Conclusão

Bem, espero que essa pesquisa feita as pressas possa servir para fazer com que vocês conheçam um pouco mais do Zé Carioca e os instiguem a ler mais sobre ele. Vocês não precisam sair à procura de uma coleção de gibis dele (apesar de eu recomendar, são histórias realmente engraçadas, no mesmo estilo de humor brasileiro que a  Turma da Mônica possui) mas podem pelo menos dar um pouco mais de respeito a um representante do nosso povo que cativou o coração do “Seu Waldisnei”.

Claro que ele foi criado com segundas intenções e claro que foi uma criação dos americanos capitalistas e imperialistas (mas a personalidade mais marcante foi dada por brasileiros); claro que a CIA queria usar o Zé Carioca para ludibriar o brasileiro comum e transformá-lo num servil soldado na guerra contra os nazistas. Porém, quantas coisas agressivas nós aceitamos dos americanos e achamos bonito. No lugar de tudo isso porque não achar engraçado a invenção de um papagaio que só faz dançar samba e tomar cachaça de vez em quando?

Passem no sebo do Centro e gastem uns 50 centavos num formatinho do Zé Carioca, tenho certeza, vocês darão muitas risadas com as proezas do nosso querido ator de filmes da Disney.

Ao Sr. Renato Vinícius Canini, há um menino de 6 anos que vive em mim e diz “Obrigado por criar algo que me incentivou a gostar de gibi”.

 

Agradecimentos Especiais:

A minha mãe, pelo meu primeiro gibi que tem um personagem verde na capa.

Ao Blog Amigos de Pelotas, de onde tirei algumas informações importantes.

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