A Gibiteca, o Gralha e o orgulho nerd curitibano

Está é uma republicação de portfólio de uma matéria que escrevi após voltar de viagem da capital do Paraná e de conhecer a famosa Gibitéca de Curitiba. A matéria foi publicada originalmente no Dinamo Studio, nesse endereço AQUI.

(Ou… Apenas uma parte da História paranaense dos quadrinhos no Brasil)

Acredito que muitos leitores brasileiros sabem que existe uma forte tradição de colecionadores quadrinhos no Paraná. Por isso, não é de se espantar que a capital do estado tenha recebido a sua própria Gibiteca. Não somente uma biblioteca com um grande acervo, a Gibiteca de Curitiba – hoje localizada junto ao Solar do Barão – é a primeira do Brasil e, em 1988, o próprio Will Eisner em visita garantiu não haver no mundo maior espaço dedicado a nona arte.

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A produção de revistas no estado existe desde longa data. De 1978 a 1983 a editora Grafipar trouxe as terras brasileiras uma sequência de surpresas em matéria de publicação nacional. A equipe de direção editorial da empresa descende da antiga Edrel que no final da década de 70 lançou ao mercado os artistas Cláudio Seto (O Samurai de Curitiba; um dos precursores do mangá no Brasil e criador do Super-Pinóquio) e Fernando Ikoma (co-autor de A História Universal das Histórias em Quadrinhos e roteirista do Judoka* pela Ebal).

Nessa época, era difícil um produto ou editora se consolidar estando fora do eixo Rio-São Paulo. Mesmo assim alguns artistas que hoje tem renome na cena nacional investiram no Paraná durante essa época de explosão de lançamentos. Nomes como Rodval MatiasFlavio ColinMozart Couto e Watson Portela escolheram Curitiba como ponto de origem de suas publicações. O próprio poeta e escritor Paulo Leminski**, tão cultuado pelos curitibanos, se considerava amante da linguagem dos quadrinhos e colaborou com roteiros.

Essa boa época de publicações teve seu fim em 1983, vítima de uma violenta crise econômica. Mesmo assim, alguns dos jornais do estado mantiveram uma linha de divulgação popularizando os quadrinhos. Não chegavam a produzir gibis, mas A Gazeta do Povo (de Curitiba) sempre elaborou pautas com essa temática e o Jornal de Londrina teve sua coluna semanal dedicada à nona arte. Artigos esses, assinados muitas vezes pelo jornalista Eloyr Pacheco – que atualmente é colaborador da Revista Mundo dos Super-Heróis.

A Metal Pesado e o Gralha

revistas-metal-pesado-2-4-e-5_MLB-F-4270348309_052013Durante a década de 90, Pacheco, com apoio da Prefeitura Municipal e da Fundação Cultural de Curitiba, trouxe as bancas tupiniquins a Metal Pesado. Apesar de referenciar a francesa Metal Hurlant (mais detalhes no nosso episódio sobre Moebius), a revista seguiu por um caminho pouco semelhante da versão nacional da Heavy Metal. Eu digo “pouco semelhante” porque a Brazilian Heavy Metal publicou tanto material europeu quanto nacional. Mas nunca deixou de lançar edições especiais divulgando apenas material do Brasil.

Já a o foco da Metal Pesado era publicar autores nacionais. Não só isso, como revelou ao mercado quadrinhistas paranaenses como José Aguiar (coordenador do Gibicon; que já deu entrevista ao ARGCast), Nilson MullerGian Danton,Antonio Eder (Manticore), entre outros.

Também foi nas páginas de edições da Metal Pesado que um personagem pouco conhecido pelo resto do Brasil fez algumas de suas aparições. Estou falando do Capitão Gralha, mas que também atende apenas por O Gralha. Ele é um aventureiro uniformizado criado durante a década de 40 por Francisco Iwerten.

capitao_gralhaIwerten fez parte de um projeto para conhecer os EUA durante a política de boa vizinhança da Segunda Guerra Mundial – a mesma que nos deu o Zé Carioca. Ele foi convidado pelo governo estadunidense a conhecer o país. Lá teve contato com o gênero Super-Herói e até visitou estúdio de Bob Kane (criador do Batman, né Fabiano?). Desnecessário dizer que ao voltar ao Brasil, Iwerten “inventou” o seu próprio Super. Que tivesse a cara do público do Paraná. Assim nasceu o Gralha.

Hoje as revistas do personagem são extremamente raras de serem encontradas nos sebos e lojas de usados. Ainda mais exemplares em condições de leitura ou manuseio. Publicado pela Gráfica Eclipse, o título teve no máximo três números. Em diversas ocasiões a Metal Pesado republicou os contos do herói curitibano com o traço de novos artistas. Hoje, ao se digitar “O Gralha” no buscador do Facebook é possível encontrar grupos de fãs do Vigilante das Araucárias.

scan0015O primeiro impresso sobre o herói, atualmente, também só pode ser adquirido nos melhores sebos, mas a revista figura como um orgulho entre as publicações de Curitiba. Bem como o fanzine de alta qualidade Manticore. Esse teve a colaboração do amigo Líber Paz que no ano passado lançou o belo álbum As Coisas que Cecília fez, indicação do HQMix de 2014. Mais detalhes aqui.

E eu por que estou lendo e escrevendo sobre tudo isso? Com certeza não é para os amigos gaúchos dizerem: “Nem se mudou para lá e já está se vendendo pra “Curitola”, tchê!”.

Legendas:

* O Judoka foi um dos títulos de maior sucesso no Brasil. Tanto que a Ebal adquiriu o direito de escrever história exclusivas que não haviam na versão original.

** Paulo Leminski foi um poeta, escritor e professor curitibano. Escreveu poemas e ensaios aclamados no Paraná e no Brasil; bem como música para bandas locais. Além de trabalhar como tradutor.

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